Lá vem a temida e amada, a malfadada e idolatrada, a hiper e subestimada, a vilã e salvadora, a sabe-tudo mais enigmática e fascinante dos nossos tempos: a IA, mais especificamente, a IA na tradução. Quer dizer, tradução é muita coisa, então vamos delimitar para uma perspectiva da IA na tradução.
O que nos prometeram:
• O apocalipse dos profissionais que trabalham com textos escritos, com os tradutores encabeçando a lista do Armagedon, sem a visão de anjos nem de música do Aerosmith ao fundo como redenção (eu sei que agora a sua cabeça está: I don’t wanna close my eyes…);
• Absoluta precisão e imparcialidade. Ela não erra, no máximo, sua busca encontra informações incompatíveis com a realidade do usuário (confia!);
• Produtividade absurda, pois máquinas não se cansam, tornam-se obsoletas e sua tecnologia é constantemente substituída por outra mais eficiente (okay, aqui temos um argumento que se sustenta).
Como é:
• A IA falha quando o contexto exige bom senso, empatia, inteligência emocional, sensibilidade e julgamento moral, por quê? Porque ela é artificial, ou seja, uma espécie de reprodução, não de criação, das habilidades e competências humanas, como se o conhecimento de bilhões de pessoas, adquirido em milhares de anos, pudesse caber em um supercérebro. Até dá, mas é impossível sair pleno e tranquilo desse turbilhão. Assim, profissões que exigem humanidade precisam existir, ainda que tenham a IA como uma ferramenta de trabalho de grande valia. Mais além, focando exclusivamente na tradução, a confidencialidade é fundamental para manter a integridade de certos projetos e, como já vimos, a IA é uma grande boca de sacola.
• Modelos de linguagem de IA são capazes de fazer brotar informações na sua tela, com a maior convicção, em segundos; no entanto, eles não detêm o conhecimento absoluto e incontestável dos fatos, “apenas” calculam a probabilidade do termo ou do argumento seguinte, o que pode acarretar erros ou alucinações. Quem somos nós para julgar, não é mesmo? Contudo, é bom seguir aquele velho conselho: “confie desconfiando”, e aí, mais uma vez, a interferência humana se torna indispensável, porque é muito fácil se deixar enganar por esses danadinhos ao crer que eles sabem exatamente o que estão falando, quando, na verdade, estão só “trucando” a sua carta de expertise.
• Seria uma hipocrisia sem tamanho dizer que a IA não revolucionou o mercado da tradução. É obvio que ela vem transformando as funções, agilizando processos, sobretudo os de repetição, aumentando a produção e, sim, mostrando-se muito eficaz na automatização de alguns nichos, mas nem de longe decretou a extinção dos tradutores, tampouco fará isso nas próximas décadas, porque, embora domine a lista interminável de sinônimos, ela é incapaz de determinar o termo que vai transmitir toda a carga de emoção ou de argumentação necessária, principalmente quando o que se procura não tem nome.
Sigo atestando que, enquanto a IA não souber com exatidão como é o calor no peito, provocado por uma paixão/realização, ou a dor de um coração partido por qualquer razão, a sensação que as superfícies, os aromas, os sabores e as cores nos causam, é impossível ela tomar o nosso lugar. A tecnologia pode até nos ajudar a encontrar o par correlato mais próximo, mas só quem pode afirmar com absoluta certeza é quem sente.
— Amarilis Okida, professora e coordenadora dos cursos de Interpretação e Tradução da Interpret2b.





